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Na avaliação do especialista em investimentos, o pânico do mercado é passageiro e os fundamentos da economia continuam sólidos.

Sócio e cofundador da Allez Invest, de Curitiba, uma das maiores corretoras parceiras da XP Investimentos, o executivo Renan Hamilko viveu nesta semana uma tempestade perfeita — formada pela combinação entre o pânico com o coronavírus e o embate entre Arábia Saudita e Rússia, que derrubou a cotação do petróleo. Com projeção de alcançar R$ 1 bilhão em custódia neste ano, Hamilko, especializado em gestão de grandes fortunas e ativos de risco, classificou a turbulência como uma prova de fogo para os investidores brasileiros. “A queda acentuada da bolsa, com períodos de repiques, foi uma aula prática para aqueles que estão aprendendo a investir e a diversificar seus recursos entre renda fixa e variável”, afirma Hamilko. A boa notícia é que, segundo ele, o mercado de ações chegou ao fundo do poço ou está muito perto disso. “Não há espaço para mais quedas. Como os fundamentos da economia e das empresas continuam os mesmos, não há dúvidas de que os papeis vão reagir.” Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu à DINHEIRO na tarde da quarta-feira 11.

DINHEIRO — Depois do pânico generalizado das bolsas nesta semana, quais são os possíveis novos impactos da pandemia global do coronavírus no mercado de investimentos no Brasil?
Renan Hamillko — No curto prazo, poderemos ver algumas quedas, mas não acredito que haverá espaço para as ações continuarem caindo. Realmente é difícil ficar otimista depois de ter vivido uma semana como esta, mas o cenário, analisando racionalmente, não justifica tanto desespero. Depois de forte desvalorização das ações nesta semana, acompanhada de uma acentuada desvalorização do real, o Brasil ficou extremamente barato em dólar. Não há espaço para mais quedas. Como os fundamentos da economia e das empresas continuam os mesmos, não há dúvidas de que os papeis vão reagir. Por isso, a recuperação deve ser relativamente rápida.

Isso é uma aposta ou tem fundamento em fatos concretos?
É uma projeção apoiada em fundamentos reais. Um sinal forte de que o fundo do poço pode ter chegado, ou está perto disso, é porque a bolsa repicou. Caiu forte na segunda-feira, subiu no dia seguinte, e voltou a cair na quarta-feira. O que gerou medo entre os investidores foi que, além do coronavírus, a disputa entre Arábia Saudita e Rússia derrubou a cotação internacional do petróleo. Quem estava em cima do muro, sem saber o que fazer, tomou uma decisão.

Quanto tempo essa instabilidade vai durar?
A crise do coronavírus vai passar em menos de três meses. Entre 60 e 90 dias, tudo estará mais calmo, com a produção de vacinas, inclusive. Os focos de proliferação do vírus, principalmente na China, estão tomando todas as providências para evitar que a situação piore. Vejam que o número de novos casos na região de Wuhan cai a cada dia. Ainda no primeiro semestre, a poeira terá baixado.

E a crise do petróleo?
Essa guerra do petróleo não vai se estender por muito tempo. A cotação atual não é bom negócio para ninguém. Tanto os árabes quanto os russos estão perdendo bilhões com a disputa. Outros países produtores, que estão sendo prejudicados pelo petróleo extremamente barato, devem intervir para que entrem num acordo. Por trás dos preços do petróleo há disputas de influência geopolítica e de reequilíbrio econômico, assim como acorreu durante a recente guerra comercial entre Estados Unidos e China. Hoje, quase ninguém fala mais disso. A Rússia tem reservas enormes de petróleo, mas não pode perder dinheiro.

Então é cedo para dizer que 2020 será um ano perdido?
Com certeza. No segundo semestre vamos observar uma recuperação significativa no valor das ações e no retorno dos investimentos. Não tenho dúvidas de que a bolsa vai fechar 2020 acima dos 100 mil pontos. O fundamento da economia não mudou. Na quarta-feira (11), com a bolsa caindo mais de 10%, recebi apenas uma ligação de uma investidora querendo se desfazer de um fundo de ações.

Os governos estão demorando a agir?
Não. Acredito que as maiores economias do mundo tomam ações rápidas para evitar um estrago maior. Os Estados Unidos, o Japão e os países europeus anunciaram que estão dispostos a lançar estímulos para manter a economia rodando.

Mas a declaração do presidente americano Donald Trump para tentar acalmar os mercados não surtiu efeito…
Nem se todos os líderes globais divulgassem uma declaração conjunta resolveria. Os investidores, apavorados, não ouviriam ninguém. Então, o melhor é monitorar e observar os desdobramentos dos próximos dias. As coisas vão se assentar.

Quem tem dinheiro para investir, deve comprar mais ações?
Com cautela, sim. Observamos um aumento exponencial de investidores querendo aumentar a exposição na bolsa. Ou seja, comprando na baixa. Aqui na Allez Invest estamos recomendando algumas compras, mas de forma gradual. Alguns clientes queriam colocar R$ 100 mil na bolsa. Sugerimos colocar R$ 30 mil no primeiro dia, e ver como fica. O importante para quem está investindo em ações é que ninguém acerta tudo. Tem dia que perde, tem dia que ganha. O importante é pensar no longo prazo.

O susto dos pequenos investidores, principalmente novatos, tende a levá-los de volta à renda fixa?
Muita gente vai voltar para a renda fixa. Jamais tínhamos como prever que isso aconteceria. O problema é que quem não tem formação econômica vende apavorado. É uma prova de fogo, que serve como oportunidade para avaliar os reais riscos dos ativos de risco. Bolsa é ativo de longo prazo. As expressões “aposta” e “especulação” são palavras que definem errado o mercado de ações e induzem os investidores ao erro. O único jeito de melhorar a qualidade dos nossos investidores é a experiência. A queda acentuada da bolsa, com períodos de repiques, foi uma aula prática para aqueles que estão aprendendo a investir e a diversificar seus recursos entre renda fixa e variável.

Que conselho seus clientes mais pediram enquanto a bolsa derretia?
A maioria perguntava se era a hora certa de comprar ações da Petrobras. Os mais agressivos, compraram. Em geral, aconselhamos nossos clientes a aproveitar papéis que estão muito baratos, tanto quanto os da Petrobras, e tendem a apresentar menor volatilidade nos próximos meses, como Banco do Brasil, Klabin e Via Varejo. Hoje, tem muita empresa boa em oferta na bolsa. Como caiu de maneira generalizada, quase tudo ficou em promoção. Quem entrar agora na bolsa e tiver paciência para esperar vai ganhar dinheiro. Existem ativos com menos risco e com preços ótimos. Boas pagadoras de dividendos.

O que se pode esperar de ação do governo?
O que teria impacto direto na recuperação dos investimentos seriam as duas reformas: a PEC emergencial e o marco do saneamento básico. Fora disso, o que vai resolver são iniciativas do Banco Central. O BC vai afrouxar um pouco mais os juros. A Selic, na esteira do mundo, vai descer para 3% ou 3,5%.

Isso é bom?
Não é. Qualquer taxa menor do que já está começa a ficar temerária. O Brasil não tem maturidade para uma taxa tão baixa. Pode haver picos de inflação, fuga de capital externo, desvalorização forte do real. A queda da Selic será inevitável, mas o corte precisa ser bem calculado.

O ministro Paulo Guedes disse que vai transformar a crise em geração de empregos. Como isso vai ser possível?
Adoraria saber. O que o governo pode fazer é criar estímulos monetários para as empresas. Investimento em empresas geradoras sempre leva a emprego e renda.

Mas essa iniciativa iria na contramão da filosofia do governo…
Sim, não faz o menor sentido planejar algum inchaço do Estado. É um assunto delicado. Mas o governo pode encaminhar a agenda de reformas. Isso vai sinalizar os rumos da economia para o investidor brasileiro, que estará pronto para voltar. Não se trata apenas de estímulo fiscal, mas na definição de clareza e segurança.

E o Banco Central?
Apesar de o dólar estar subindo, o Banco Central está conseguindo segurar a alta da moeda americana. O BC está cumprindo o compromisso de deixar o câmbio flutuar, mas agir momento de grande estresse do mercado.

Uma recessão no Brasil será inevitável?
Não vejo risco de recessão no Brasil. Uma queda pontual é provável, mas não enxergo recessão. Partindo do pressuposto de que a crise do coronavírus não vai durar mais do que três meses, algumas empresas, especialmente companhias aéreas do setor de turismo, vão sentir mais. Acho pouco provável que a economia seja impactada no longo prazo.

A Allez Invest já está revendo as projeções?
O PIB certamente vai ser revisado para baixo, mais perto de 2%. Acredito que os investimentos que forem adiados no primeiro semestre, devem sair no segundo. Mesmo que no final do ano acabe em alta, qualquer palpite agora estará contaminado pelo pessimismo. Estamos trabalhamos semanalmente em mais de 50 planos de ações, controlando metas e resultados. Em tempos de crise e turbulência, o papel das corretoras de investimento se torna ainda maiws importante.

fonte: https://www.istoedinheiro.com.br/

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